Arquivo de março de 2010

Os bons morrem jovens

quinta-feira, 25 de março de 2010

Toda vez que os jornais noticiam algum caso de morte no trânsito saem diversas opiniões sobre o caso. Muitos dizem que a culpa é do pedestre, outros afirmam que os motoristas são irresponsáveis, existe até quem fale numa combinação de pedestre e motorista num mesmo erro, que na maioria das vezes leva sempre o lado mais fraco. Agora, se você se depara com um erro fruto de uma má administração, de uma prefeitura incompetente e desprovida do menor senso crítico para admitir a existência de erros primários e que no final de tudo isso, a vítima do erro é uma pessoa de bem, querida e admirada por todos os que o cercavam, qual é a sensação? Pois é, ultimamente todos têm se perguntado porque as pessoas de bem sofrem tanto com essa violência que assombra nossa cidade…

Quando falo em violência não me refiro aos muitos assaltantes, assassinos, arrombadores, traficantes e etc, me refiro sim ao descaso que somos obrigados a enfrentar todos os dias por causa de um governo totalmente omisso nas questões básicas. Um governo que parece não estar preocupado com detalhes simples. O trânsito mata milhares de pessoas todos os anos, e parece difícil essa estatística entrar para as prioridades governamentais, acumulando o número de vítimas e a tristeza de quem perde um amigo, um parente, um semelhante. Infelizmente é de se lamentar profundamente que vamos ter de aturar isso, mesmo pagando os impostos que parecem atrasar ao invés de trazer o progresso.

Esse sentimento de raiva e impotência é o que todos os amigos de Marcelo Cardoso Modesto, conhecido pelos amigos como “cerpinha”, estão sentindo com a perda do amigo. Mais uma vítima do “transito” de belém, esse emaranhado de ruas mal distribuídas e sinalizadas, que cresceu de forma desordenada e fadadas ao insucesso. Nosso amigo “cerpinha” infelizmente entrou pras tristes estatísticas que assolam cada vez mais. Nosso amigo foi cedo. Era uma pessoa ímpar, que sentia orgulho em ajudar as bandas nas quais gostava. Não cobrava nada, exceto para quem o de fato contratou. Era uma pessoa extremamente prestativa e amiga, não tinha um inimigo sequer. Sua capacidade de fazer amigos era impressionante, acredito que era uma das pessoas mais bem relacionadas que conheci na vida.

Infelizmente a vida é assim, injusta com quem não deveria e piedosa com quem não merece. Perdemos um companheiro não só de noite, mas de vida, porque além de tudo era alguém preocupado com o próximo. Dava conselhos e não pedia nada em troca, assim como não cobrava pelas alegrias que dava aos amigos. Foi embora cedo, deixando mais uma vez todos em volta surpreso, mesmo que contra sua vontade. Essa hora sua alma deve estar roncando em uma moto feita de nuvens brancas em algum canto do paraíso, esperando os amigos com toda paciencia, como era de costume. Prestativo, atencioso, amigo e companheiro, lamentamos a sua ida de forma arrasadora. Não é fácil aceitar um vida tirada de nós por culpa dos erros gritantes e estúpidos de uma pobre sinalização de obra. São muitas as pessoas que lamentam não lhe dar um último abraço, mas o que as conforta é a mesma característica que me fazia lembrar dele: quando menos esperava nos cruzávamos em algum lugar, e tenho certeza que para todos nós esse dia voltará!

O que Belém perdeu com a copa…

terça-feira, 9 de março de 2010

Publicado originalmente no Blog Espaço Aberto

Não perdemos a subsede da Copa do Mundo 2014 para Manaus. Perdemos para nós mesmos. Essa reflexão me veio novamente à tona ao ler em revista de circulação nacional que algumas capitais estão muito atrasadas quanto ao cronograma de obras viárias necessárias para sediar os jogos, principalmente em relação à reforma e construção dos estádios. E pensar que nesse item Belém levava grande vantagem em relação a quase todas as outras capitais, por possuir um dos mais modernos estádios do Brasil, o Mangueirão…

Faltou-nos, então, além de prestígio político, competência nas negociações que antecederam a escolha das subsedes. Como assim? Simples: ao invés de disputar com Manaus, deveríamos ter procurado a adesão dos irmãos amazonenses no pleito comum de duas sedes para a Amazônia, uma lá e outra em Belém. Com essa estratégia, teríamos talvez conseguido para Belém uma das quatro vagas do Nordeste, quem sabe a de Natal, que ainda luta com grandes dificuldades para construir um novo estádio, por falta de verbas.

Não estou chorando pelo leite derramado. Até porque lancei essa sugestão, na época, aqui mesmo no blog do Espaço Aberto, ao comentar a passagem por Belém da caravana da FIFA para vistoriar o estádio do Mangueirão. Ao sobrevoar a cidade, a bordo de possante helicóptero, os homens da Fifa devem ter se alarmado com o trânsito pesado e parado no entorno do Entroncamento e do estádio. Portanto, perdemos a Copa para o nosso sistema de tráfego superado, caótico e neurótico, por falta de visão de gestores do passado, que foram deixando a cidade crescer desordenadamente, sem planejamento urbano e sem as intervenções necessárias em obras viárias indispensáveis para atender a esse crescimento.

O projeto do PDTU-85, elaborado pelos japoneses da Jica, agora que está saindo do papel, 25 anos depois, com a realização de apenas uma de suas mais de 20 obras viárias, o elevado de quatro pétalas, na confluência da avenida Júlio César com avenida Pedro Álvares Cabral. Mas o principal gargalo do trânsito, no entorno do Entroncamento, por falta dos elevados por cima dos túneis inadequados, continua desafiando a paciência de motoristas e pedestres e a competência das autoridades encarregadas daquele Complexo do Caos.

Mas o que mais Belém está perdendo, ao ser excluída do eixo da Copa 2014, é a chance da modernização de seu sistema viário urbano, contaminado pela cultura do atraso, patrocinada pelos donos de ônibus, que também se julgam os donos da cidade, porque sempre ajudam a eleger o prefeito.

Todas as 12 cidades subsedes da Copa 2014 receberão verbas federais para solucionar, com prioridade, a crise do transporte coletivo, através da adoção de uma versão compacta do metrô de superfície, veículos leves sobre trilhos, os VLTs, que são um misto de metrô e ônibus, estilo papa-filas, cujos modelos a diesel poluem 93% menos que os ônibus comuns e os elétricos nada poluem. Cada VLT transporta 270 passageiros, o que equivale a quatro ônibus comuns lotados. Eles emitem 75% menos ruídos que os automóveis e consomem apenas 10% da energia ou combustível gastos por um ônibus comum.

Onde são fabricados? Logo, ali, no sertão do Cariri, por uma empresa cearense danada de eficiente, a Bom Sinal. O sucesso do VLT cearense é tão grande que a empresa já está atendendo a encomendas de 50 prefeituras de capitais e cidades do interior, que desejam pegar carona na modernidade. Prefeitos de cidades muito menores que Belém estão indo em caravana a Fortaleza para conhecer o metrô do cariri, uma solução infinitamente mais econômica que o modelo convencional, que anda por baixo da terra, porque dispensa desapropriações e as escavações demoradas e caras. O “arretado” trem cearense está promovendo uma nova revolução nos transportes urbanos do Brasil.

Enquanto isso, em Belém, os donos de ônibus não querem mudar nada e a prefeitura também não tem apetite nem autoridade para promover qualquer mudança em nosso falido sistema de tráfego urbano. Continuamos convivendo com o atraso dos sinais de quatro tempos e das “tartarugas do asfalto” como balizadores do trânsito congestionado, além da zorra promovida pelos alternativos nas paradas de ônibus, pegando passageiros no meio da rua e com os gritos alucinantes de seus verdadeiros profetas do caos. Até quando, senhores ou senhoras do destino de nossa bela e maltratada cidade?

http://blogdoespacoaberto.blogspot.com/

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FRANCISCO SIDOU é jornalista

chicosidou@bol.com.br